sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Discrepâncias



Por trás das grades de uma janela uma menina de cabelos dourados presos com uma fita mimosa, pele alva, bochechas rosadas, vestida com um casaco azul celeste estampado com margaridas, brincava com sua boneca em seu quarto cor de rosa. Ao seu lado em cima de sua cama macia e com cobertores limpos e perfumados uma bandeja com biscoitos e um copo de leite quente a esperava. O inverno aquele ano estava sendo rigoroso.

Outro dia quando saía de casa para ir ao colégio com sua mãe uma cena lhe ressaltou os olhos. Uma menina, aproximadamente da sua idade, com poucas roupas, cabelos presos em um pedaço de pano velho, chinelos de dedo, brincava dentro de uma cesta de lixo, sua suposta casa de boneca, com uma garrafa pet na mão e na outra um pedaço de pão de aparência duvidosa mas que ia comendo sem se importar. Ao lado de fora sua mãe revirava o lixo em busca de algum alimento e material reciclável para vender.

A menina então perguntou para sua mãe:
- Mãe por que aquela menininha brinca no lixo?
- Filha, ela brinca porque é pobre e não tem dinheiro para comprar brinquedos.
- Mas mamãe não tem perigo de ela ficar doente nesse frio?
- Não ela já está acostumada.
- Mas por que ela é pobre?
- Porque tem pessoas que não são privilegiadas como você, eu e o papai.
- Mas e o papai do céu não pode ajuda-las?
- Filha Deus tem mais o que fazer do que se preocupar com essas pessoas que não querem trabalhar, que só querem viver de esmolas. E não fica olhando podem nos assaltar.

A menina então ficou calada, mas aquela imagem não saiu de pensamento. No outro dia enquanto brincava em seu quarto olhou pela janela e lá estava a garotinha e sua mãe novamente no lixo. Então pegou uma de suas bonecas e foi até o portão cuidando para que sua mãe não a visse.

Ficou olhando para a menina até ela lhe olhar então esboçou um sorriso e lhe acenou. A garotinha retribuiu. Logo após chamou-a para brincar. A garotinha aproximou-se do portão com a cabeça baixa e olhar apreensivo. Brincaram através das grades do portão por um tempo. Depois a menina buscou seus biscoitos e o copo de leite, ofereceu para a nova amiga e  a garotinha logo tomou e comeu tudo.

- Você não tem frio? Perguntou a menina.
- Tenho mas não tenho casaco.
- Minha mãe disse que vocês são pobres.
- É, minha mãe  cata no lixo garrafa e papelão pra vende e compra comida pra gente, eu tenho 5 irmãos e moramos em um barraco bem frio, quando chove molha tudo dentro.
- Mas você não reza para o papai do céu ajudar vocês?
- Sim. Sempre antes de dormir a mãe ensina a gente a dize obrigado pela comida que ela conseguiu e pela gente tá tudo junto e bem.
- Você tem boneca?
- Não só umas garrafas que eu brinco que são.
- Se você quiser pode ficar com minha boneca, eu peço outra para a mamãe.
- Tá bom então. Brigada você é legal.
- Você também. Quer ser minha amiga para sempre?
- Quero sim. Esboçou um enorme sorriso.

A partir de então passaram a brincar pelas grades do portão todos os dias. Tornaram-se grandes amigas. Todos os dias a menina esperava a amiga  e guardava seu lanche até ela chegar.

Não é de hoje que deparamos com situações que contradizem todos os direitos e garantias individuais elencados na Constituição. Muitas pessoas sobrevivem abaixo da margem do que possa ser uma vida digna.

Fome, miséria, escassez, frio, falta de saneamento básico, são uns dos milhares de problemas enfrentados por grande parte da população. A situação vivenciada por essas pessoas é desumana e sempre cruel.

Todos desejamos felicidade, mas será que ser feliz e não se preocupar com o mundo que clama ao nosso redor?

Será que para ser feliz deve-se somente viver para alcançar os objetivos sem olhar para quem está ao lado?

Será que todos os sacrifícios e indiferença valem a pena para alcançar a plena realização?

Com certeza que não. Porém ainda há aqueles que responderiam que sim.

A busca pela felicidade requer sacrifícios, mas sacrifícios pessoais, transformações íntimas. Nenhuma batalha vencida valerá a pena se não tivermos com quem compartilhar a vitória.

A felicidade só existirá se ao seu lado estiver a compaixão. A solidariedade, a caridade e o amor ao próximo devem ser regras básicas para a  convivência em sociedade. Estender a mão para quem está ao chão é muito mais digno do que somente jogar uma moeda.

Todos fazem parte dessa sociedade e assim sendo não cabe somente reinvidicar  direitos individuais enquanto  não lutar e exercitar os direitos coletivos. Ter humanidade e respeito pelo semelhante é fundamental para ultrapassar os empecilhos diários e alcançar a plena felicidade.

Ser feliz é a busca real mas ser humano é fundamental. Não há valor no mundo que compre um abraço sincero e um sorriso singelo.

É incrível como a grades que aprisionam e separam o real do nefasto podem causar certo conforto e sensação de segurança, mas o medo mesmo assim continua implícito em todos os subconscientes daqueles que não tem coragem de dar uma chance ao desconhecido.

As duas meninas do início da história continuaram a brincar por vários dias. Davam risadas, conversavam, comiam porém nunca tiveram a chance de se abraçar. Mas o que é o abraço comparado a atitudes que demonstram muito mais. Os dias iam passando até que a garotinha não mais apareceu para brincar. A menina ficou triste. Todo o dia olhava pela janela a espera da amiga. A sua mãe não entendia o porquê. Os anos passaram, a menina cresceu, mas o  que ela nunca soube é que em uma forte chuva que teve na cidade o bairro onde a garotinha morava inundou e toda sua família desapareceu pelas tortuosas águas.

Contudo, por mais diferenças que existam todos são iguais, pois todos são seres humanos e independentes das situações que enfrentam são dotados de inteligência e sentimentos. E sempre, em algum relapso de momento na sua busca insaciável pela felicidade, suas diferenças irão se igualar.


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