sábado, 24 de setembro de 2011

Benditos 2 centavos!!!!


Como de costume fui à casa das minhas primas, minhas melhores únicas ouvintes, para conversar, tomar um chimarrão e dar umas boas risadas. Chegando lá encontro nossa avó sentadinha na cadeira que já se tem sua marca registrada. Depois de um tempo sentamos todas na cozinha para tomar o famoso e delicioso café da tia, mãe das minhas primas. Seria mais um fim de tarde banhado de café quentinho e bolachas salgadas e é claro, como não poderia faltar em uma mesa composta de seis mulheres, muitas opiniões a respeito da vida alheia. Vide mexerico no dicionário.
A cada gole de café o papo ia esquentando, até que minha avó resolveu contar mais uma de suas irreverentes histórias. 
Só para constar minha avó nasceu em Natal, Rio Grande Do Norte, e quando muito jovem veio para o sul. Aqui conheceu meu avô, apaixonaram-se e casaram-se. Sempre tiveram uma vida difícil, de constantes batalhas. Meu avô vendia frutas colhidas na chácara onde moravam e minha avó costurava para fora. Apesar dos empecilhos que surgiam no decorrer do caminho tiveram  quatro  filhos  e trilharam uma vida de muitas conquistas e realizações.
Se fechar meus olhos posso sentir o gosto azedo das mexericas e o cheiro da grama verde, pois  em todas as tardes de inverno meu avô as colhia e sentávamos na grama para degustá-las. Até agora jamais degustei de bergamotas como àquelas.
Porém voltando a prosa, certo dia quando minha avó foi ao médico em virtude de os pontos decorrentes da cesárea de meu tio haverem infeccionado, ocorreu o acaso que se tornou o princípio de toda essa história. Na saída para ir ao médico minha avó pegou todas as moedas que tinha guardado com a venda das frutas do pomar para pegar o ônibus. Chegou, consultou e quando saiu foi para a parada pegar o ônibus de volta. Chegando à parada deu-se conta de que as moedas restantes não dariam para toda a passagem, faltavam dois centavos, e então mesmo com muita dor decidiu voltar a pé para evitar a vergonha de o cobrador não aceitar que pagasse o restante faltante outro dia.
Recentemente, anos depois do ocorrido, minha avó foi ao centro junto com minha prima para pagar uma conta. Observação : minha avó é a legítima credora fiel que jamais deixa passar um dia de atraso, o oposto do que ocorre nos dias atuais. Porém, chegando na loja o caixa cobrou juros de dois centavos. Minha avó no instante aumentou a voz e disse que não iria pagar pois não estava atrasada. Mas o caixa intrigado continuou insistindo e disse que eram apenas dois centavos, minha avó retrucou dizendo que para ela aquelas míseras moedas tinham um valor imenso. Contudo no final da discussão minha avó recuou e pagou os dois centavos. Para a alegria da minha prima que já estava ficando vermelha diante dos meninos bonitos que estavam atrás na fila.
Sinceramente minha avó estava certa. É sabido que a maioria dos leitores que lerão esse texto dirão: que isso eram apenas dois centavos?
Mas nesse mundo atual em que as desigualdades econômicas crescem a todo instante, onde a miséria é a cruel realidade de muitos cidadãos, esses dois centavos são a esperança de várias pessoas tomarem um copo de leite, comerem um pedaço de pão.
Nesse imenso país muitas pessoas acordam de madrugada para trabalhar em condições desumanas e batalham de centavos em centavos para conseguirem o mínimo do que possa ser uma vida digna.
Essas pessoas que lutam todos os dias mesmo quando o cansaço do corpo não permite mais é que são os verdadeiros Supermans e Mulheres Maravilhas. Para esses cidadãos é que se deve tirar o chapéu.
A sociedade capitalista faz com que as pessoas trabalhem mais para terem maiores recursos e assim consumirem o dobro. Assim sendo a maioria esquece as pequenas quantias e só pensam nas famosas onçinhas. Porém hoje são dois centavos, amanhã quatro e no final do mês será o valor de um litro de leite, a maioria dirá que não é nada, mas para quem não tem nada isso é muito. Deve-se dar valor diariamente a tudo que é conseguido arduamente.
Depois que minha avó me contou a história comprei um cofrinho e todas as moedas que encontrava guardava dentro. Esses dias passei em frente a uma vitrine e vi uma linda blusa em promoção. Corri para casa para contar as moedinhas. Era o valor da blusa. Fui até lá e comprei-a.
Portanto, no final de tudo aprendi que de grão em grão a galinha não só enche o papo mas como pode encher o armário também. Risos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário