sábado, 24 de setembro de 2011

Por trás da fumaça!


O sol surge por entre os vales da imensa selva de prédios e edificações. Mais um dia de conquistas e derrotas nessa guerra interminável chamada vida. No decorrer do trajeto, mais que conhecido, em direção ao ganho pão diário deparo-me com uma pessoa aos prantos sentada no meio fio da calçada. Um senhor de cabelos grisalhos, muito magro, barba para fazer, olheiras profundas e com roupas esfarrapadas. Parei, pois tal cena me salta aos olhos, não que tivesse algo haver, pois não era nenhuma pessoa conhecida, mas tal era o desespero que não tinha como passar despercebido. Ele me olha, segura minha mão e diz: ajuda-me, por favor, me ajuda! Sentei-me ao seu lado e escutei-o desabafar toda a sua dor.
Seu nome era João. Tinha 35 anos. Morador de rua desde seus 25 anos. Não trabalhava a não ser quando apareciam uns “bicos”, como se referiu, para sustentar seu vício: o crack. Ele é usuário da droga desde seus 25 anos quando saiu de sua casa por sua família não suportar mais. Tinha uma esposa e uma filha de 10 anos. Começou a fumar maconha com 15 anos, depois passou para cocaína e por curiosidade experimentou o crack numa festa e depois disso não parou mais. Perdeu tudo: família, bens materiais, e o mais importante a sua dignidade. Vive nas ruas passando frio, fome e muitas vezes roubando para sustentar seu vício. Fora internado várias vezes e toda às vezes voltou para as ruas. Também já foi preso por furto. Porém, como se não bastasse o vício, João estava em desespero porque acabara de vir do velório de sua filha. A sua filha foi assassinada por traficantes aos quais João devia uma alta quantia. Traficantes ameaçaram de morte João, mas o mesmo disse que se o matassem era um favor que eles lhe faziam. Dias depois os traficantes cobraram sua dívida tirando a vida de um inocente, sua filha. Agora João pedia que alguém o ajudasse a morrer por que nem coragem para isso ele tinha.
Assim nota-se o extremo que chega a vida de um ser humano envolto pela escuridão e vazio causados pelo vício das drogas. Mas o que torna tudo mais assustador é que João é só mais um dependente dessa epidemia que já destruiu milhares de lares e que agora ameaça toda a sociedade. A sociedade urge por iniciativas estatais para resolver o problema, o Estado urge por recursos para os problemas serem solucionados e os dependentes urgem por socorro, por uma mão amiga que os tire da areia movediça que os puxam cada vez mais para baixo até que o ar enfim já não exista.
O difícil é compreender a mente humana, entender o real motivo de uma pessoa se deixar levar pelas drogas. Muitos psicólogos, estudiosos, doutores devem ter inúmeras teorias e respostas, mas a meu ver só há uma única razão: fraqueza diante as dificuldades e diversidade de caminhos colocados a nossa frente. A fragilidade da fraqueza humana é indubitavelmente a maior prova que toda e qualquer pessoa pode sofrer no decorrer de sua trajetória. Pois nada é estável no que concerne a moral e aos sentimentos, nada é certo e imprevisível de mudança no que tange as nossas escolhas e lutas.
Levantar a cabeça e seguir em frente, tropeçar e levantar, virar a página, não dependem só de palavras, de motivação, mas principalmente de ação. Mas nem sempre essa ação será positiva. No caminho percorrido nem sempre há grandes pedras, mas certamente inúmeros pedregulhos que colocarão em prova nosso equilíbrio e esforço.
Saber escolher o caminho certo quando tudo a volta o leva para um determinado lugar requer coragem e personalidade. A juventude atual sofre de um mal há muito conhecido: a falta de personalidade. Abrir a boca e dizer não em vez de concordar com a cabeça parece às vezes uma língua de outro planeta. As festas não são só mais um ambiente para ouvir uma boa música, dançar, conversar com os amigos, mas sim o lugar de venda e compra de drogas, em que o principal objetivo é conseguir mais adeptos das chamadas “ porcarias”.
Contudo ao levar em consideração que se vive em uma sociedade capitalista em que as pessoas são reconhecidas como cidadãs pelo maior acúmulo de bens de consumo que adquirirem, será que essa epidemia não será a pior conseqüência ou o mais novo e moderno ben de consumo?
E mais, se levar em conta a globalização, as redes, frutos da modernidade, as mesmas só fazem com que a comercialização evolua e ultrapasse as fronteiras, assim dificultando ainda mais os métodos de repressão e prevenção arduamente trabalhados pelos agentes federativos. Portanto, é de notável saber que, valores pré-modernos conhecidos como essenciais para a construção jurídico-social de uma sociedade atualmente foram substituídos por valores estritamente econômicos, assim refletindo diretamente na maneira de pensar e agir do indivíduo.
As drogas representam muitas vezes uma fuga da realidade, uma porta de saída falsa que por detrás esconde um imenso abismo. Sendo que a nós seres dotados de inteligência cabem escolher e ter sempre em mente que a cada escolha inúmeras conseqüências estarão por vir.
Assim sendo, não importa o motivo, a causa, nada justifica o ingresso nessa escura caminhada. Pois ao se tornar um usuário é destruído todas as possibilidades de crescimento intelectual e espiritual. A droga acaba por tornar o indivíduo refém de seu próprio medo e covardia. O usuário se torna um “zumbi” a mercê da droga para se sentir vivo, melhor, ignorando que o efeito em longo prazo o levará para um caminho totalmente diverso.
A humanidade está descrente e o remédio mais eficaz primordialmente é voltar-se a Deus e a tudo que Ele nos ensinou. A criação comprova a magnitude Divina e o quanto vale a pena viver da melhor maneira possível. Cabe também ao Estado empregar de forma justa e objetiva os recursos recolhidos em benefício da sociedade, e não em benefício próprio. Os meios estão em demasia só falta a competência para alcançar os fins. E para os cidadãos bastam ter fé e sabedoria de saber escolher o caminho certo como também, de estender a mão e ajudar a quem precisa, pois se cada um tiver consciência perante a sua comunidade é desde já o essencial para que em um futuro não tão longínquo possa enfim o mal ser em partes solucionado.
Com relação ao Seu João do início deste texto, após ele me falar de sua história o levei para casa a fim de tentar ajudá-lo de alguma maneira, porém a tentativa foi em vão, o senhor fugiu e dois dias depois foi encontrado morto, provavelmente pelos traficantes aos quais devia. Deixou apenas uma calça jeans velha, juntando-a para entregar para sua família notei que havia um pedaço de papel no bolso, o papel estava todo amassado, mas pude ver que se tratava de uma frase escrita por aquele senhor.
“Se pudesse jamais teria aberto a porta, se soubesse do abismo jamais teria entrado, a minha fraqueza me levou para o fim. Porém deixo a vida com a certeza de que ao menos no final fiz a escolha certa.”

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