Hoje amanheceu mais um dia de sol. A noite escura e misteriosa acabou. O brilho da lua mais uma vez banhou os campos, as pastagens, o beijo dos amantes, os rios, os mares, como também a alma daqueles que sobre seu encanto vivem e o chamam de lar. É engraçado como há diferenças. E sinceramente nunca tinha parado para pensar nisso.
As pessoas falam, indagam, mas nunca param realmente para pensar nelas, as diferenças, apenas vivem em seu mundo paralelo com seus iguais e se esquecem dos desiguais, sabem que eles existem mas fingem não existirem para não assumirem que no seu mais íntimo eles são iguais, pois são seres humanos como elas e viverem em condições subumanas não os tornam menos humanos, diria que os tornam até mais.
Há uma música que traduz de forma bem humorada a realidade atual deste mundo globalizado " ado, ado, cada um no seu quadrado..", e é isso, as pessoas hoje em dia vivem só para elas, no seu quadrado, para a realização de seus objetivos e se esquecem que em volta há pessoas que precisam de uma mão, de uma ajuda, de um caminho para seguir, de uma palavra carinhosa ou apenas de um sorriso, de um gesto de amor e fraternidade. Porém, não se pode negar que em um momento qualquer todos irão cair, tropeçar e precisarão de alguém que os estenda a mão e os ajude a levantar.
Assim é necessário mencionar que o meu mundo "stricto sensu" não pertence somente a mim e sim ao mundo " lato sensu" , o meu mundo não é tão diferente do mundo de todos assim sendo o meu mundo, o seu mundo, o nosso mundo, o mundo de todos é de todos, estamos todos interligados, vivendo nesse mundo desigual, mas a verdade é que somos todos iguais já que somos munidos de defeitos e qualidades, e o que nos difere são as atitudes porém essas na maioria das vezes atingem de forma direta ou indireta a pessoa ao lado, ou seja, o mundo " stricto sensu" de outra pessoa.
Há algum tempo atrás estive na capital gaúcha Porto Alegre e me deparei com uma realidade que há muito tempo existe mas que eu em meu mundo paralelo de egocentrismo não havia sequer pensado e analisado. Eu saída do interior do Estado, mas de outra capital porém essa das missões, nunca tinha visto se não pela televisão as imagens que pude olhar e encarar não somente como uma lição mas sim como uma chacoalhada em meu mundo.
Claro que no interior também há mas não de uma forma tão exacerbada. As meninas da prostituição, as crianças que muito antes de largarem suas bonecas se vem obrigadas a entrar nesse caminho escuro e perigoso, degradante, para sustentarem um vício que consome cada vez mais a juventude de hoje: o crack. Uma droga como a própria definição já intitula, um vício que arranca não só a vida dessas crianças mas a sua dignidade enquanto ser humano. Um vício que está viciando toda uma sociedade, acabando com toda uma gama de valores morais arduamente conquistados no decorrer da história da humanidade. Várias foram as lutas já travadas mas a maior de todos os tempos está por vir, a luta contra as drogas e conta todo o resto de podridão imoral que está agregado a elas.
É chocante você ver uma criança com seus sonhos, com sua infância jogada no lixo, nas ruas entregando não somente seu corpo mas sua alma em troca de dinheiro para satisfazer seu vício, ou para satisfazer a família pois muitas são obrigadas por suas mães, seus pais. Ou o que é pior: quando seus próprios pais as vendem para a prostituição como se fossem apenas mercadorias. A minha vontade é de pegar no colo, levar para casa e as cuidar. E sinceramente com os pais dessas crianças, se é que se pode chamar de pais, bom melhor nem dizer. Ademais então não se pode nem comentar o que resta para os financiadores desse mercado negro ou então como vulgarmente são conhecidos " os clientes", o que se permite afirmar sem dúvida é que não são seres humanos, não podem ser, pois quem tem o mínimo de dignidade, respeito, inteligência, raciocínio não age assim. Nem os animais que são seres irracionais agiriam dessa maneira.
É sabido que os tempos atuais estão difíceis, a crise atinge todo o mundo, o país mais poderoso se encontra com suas estruturas abaladas, mas a pior crise é essa que há em todo o mundo, que existe há muito tempo e essa a maioria das pessoas pôr mais cientes que estejam calam, se omitem, mas pôr que? E eu digo, simplesmente porque não atinge o seu mundinho " stricto sensu", e acabam pôr se esquecer que poderiam ser seus filhos, amigos de seus filhos, filhos de seus amigos, que essas crianças são o futuro, um futuro que é de todos, que é nosso, que pertence ao mundo " lato sensu ".
Mas não é só isso. Há mais, enquanto a maioria das pessoas está em sua casa, na sua cama, com seus cobertores, tomando um prato de sopa quente há pessoas morrendo de frio e de fome. Na saída da Capital em uma calçada de rua estavam várias pessoas como todas as outras com sentimentos, sonhos, uma vida, qualidades, defeitos, fraquezas, esperança, todas dormindo no chão lado a lado com um cobertor ou pior, apenas com um papelão. É chocante. Parecia cena de filme mas não, era vida real, uma vida que milhares de brasileiros enfrentam todos os dias. E eu pergunto você já parou pelo menos um minuto de seu tempo para pensar em como poderia ajudar essas pessoas ou apenas para analisar profundamente essa situação?
Não, pois a única atitude que as pessoas fazem é dizer é culpa do governo, é culpa dos pais dessas crianças, das instituições, dessas pessoas marginalizadas que escolheram esse caminho etc. E a única conclusão que se pode chegar é que a culpa é de todos, todos contribuem direta ou indiretamente para essa situação. Todos tem uma parcela de culpa enquanto não fazem nada para ajudar essas crianças. Enquanto não deixarem seu egoísmo de lado e esquecerem um pouco do comodismo que os cerca. Realmente é muito mais fácil ficar omisso e fingir que as pessoas não existem, que essa situação não os atinge, mas atinge sim, atinge a moral, o intelecto, a vida, atinge a alma mas principalmente a dignidade de cada um enquanto ser humano que todos são.
Poxa! Acorde de seu mundinho paralelo e viva! Sempre é dito que deve-se viver intensamente mas não passa de falácia pois viver intensamente é isso, é entregar-se ao mundo, é doar-se, é aprender com ele, é dar um sorriso sem motivo, é estender a mão, é dar um abraço apertado, é dar pão a quem tem fome, é dar um cobertor a quem tem frio, é dar um lar a quem não tem, não é só acreditar é lutar por um mundo melhor, é fazer parte dele, tanto do seu lado bonito como de seu lado cruel e desumano, isso sim é não ficar omisso, isso sim é fazer a parte de cada um, isso sim é viver!
São necessárias medidas drásticas, urgentes e não só por parte do governo e das instituições, mas indubitavelmente mudanças, que partam do interior de cada um, é necessário que as pessoas saiam de seu mundo " stricto sensu " e vivam no mundo real, façam a sua contribuição para a busca do progresso e não só o reiqueram, e o progresso só será possível quando todos os direitos e garantias individuais estabelecidos na Constituição saírem da utopia e virarem realidade, sendo que o principal deles é, na minha opinião, o de que todos devem ter uma vida digna. E onde está essa dignidade? Nas calçadas marginalizadas das cidades? Nas esquinas da prostituição? Nas milícias do tráfico? Nas pessoas morrendo de fome e frio?
Logicamente que não, a dignidade está de dentro de cada um, ela parte do interior, e se manifesta através das atitudes, as quais sim fazem a diferença, porém não só de ações em benefício dos bolsos de cada um e sim no benefício de toda a coletividade, ou pelo menos, daquele mais próximo que precisar. Que venham as mudanças! Mas que sejam primeiramente particulares, que partam do íntimo de cada cidadão, que causem mudanças na vida de cada um e daqueles que estão a sua volta e que precisam de uma mão amiga, para que posteriormente sejam coletivas, pois só assim o país, o mundo estará no caminho certo para o progresso, contudo não abrangendo somente o progresso mateial, mas sim para a busca do progresso moral e espiritual, os quais são indubitavelmente necessários e essenciais a todos. Por isso é válido dizer: Ado, Aaado, cada um fora do seu quadrado!
Portanto, finalizo com chave de honra como nos grandes espetáculos e não poderia ser de outra forma, este texto dizendo algumas palavras traduzidas de uma letra de música de autoria de John Lennon, que tem como título " Imagine", mas que não fique só na imaginação, nos pensamentos, que saiam e que virem atitudes concretas, " Você pode dizer que sou um sonhador, mas eu não sou o único, eu espero que um dia você se junte a nós e o mundo será como um só."
Nenhum comentário:
Postar um comentário